O Que é História? Introdução aos Estudos Históricos

O Que é História?

História é a ciência que estuda a ação dos homens no tempo. Sua ferramenta básica são as fontes históricas, os vestígios deixados pela humanidade que permitem a reconstituição do passado. Ela interpreta os fatos históricos, acontecimentos irreversíveis do passado que são compreendidos de formas diferentes na medida em que novas informações são descobertas.

Introdução aos Estudos Históricos

Vamos começar fazendo uma pergunta. O que é História? Porque nós estudamos História? Provavelmente a sua resposta deve ser esta aqui. Provavelmente a sua resposta deve ser esta aqui.

Nós estudamos História para aprender com os erros do passado e não cometê-los novamente no futuro. Certo? Não, não, não. Sinto muito informá-lo. Isto é um grande equívoco.

A História da humanidade não é uma marcha em linha reta em direção ao futuro.

A História vivida pelos homens é marcada por avanços e retrocessos, por mudanças e permanências, por continuidades e descontinuidades, por rupturas e tantas outras formas assumidas pelo tempo.

Fique tranquilo, pois eu irei explicar detalhadamente o que tudo isso significa.

Porém, é fundamental que você saiba que esse papo de estudar o passado para não repetir os erros no futuro é uma noção completamente equivocada da História.

Se isso fosse verdade não haveria mais guerras, fome, desigualdade e intrigas políticas. Cada sociedade tem suas próprias características e faz suas próprias escolhas.

É por isso que cada uma toma uma trajetória diferente mesmo conhecendo o que aconteceu no passado.

Além disso, determinadas coisas não dependem do homem. Mudanças no clima do planeta relativas a maior oferta de água e terras férteis para a produção de alimentos podem alterar completamente as organizações sociais, seja por meio da guerra ou da formação de alianças para que determinados povos consigam manter a sua sobrevivência.

É por isso que o futuro não pode ser antecipado. O futuro é como se fosse um holograma de muda de forma e de direção o tempo todo de acordo com as ações do homem e com as mudanças naturais pelas quais passa o planeta em que vivemos. O futuro é totalmente incerto.

A História é uma disciplina que faz parte de uma grande área do conhecimento chamada Ciências Humanas. Geografia, Filosofia, Sociologia e Antropologia são disciplinas da área de Ciências Humanas muito próximas da História.

Preste bastante atenção. A História tem como objetivo principal estudar a ação das sociedades humanas no tempo. Dessa forma, se não houver tempo, espaço e seres humanos não há como estudar História.

Eu gosto muito de uma citação de um professor que eu tive na UFMG chamado José Carlos Reis. Segundo ele, “o passado é uma referência de realidade sem a qual o presente é pura irreflexão.”

Ou seja, a História é uma ciência que investiga os vestígios do passado com a finalidade de fornecer referências para a compreensão do presente.

Caso não haja acesso às informações do passado nós não temos referências para pensar, refletir e compreender o presente.

Por exemplo. Imagine uma pessoa que sofreu um acidente ou que teve uma grave infeção que atingiu o seu cérebro, fazendo com que ela perdesse a memória relativa aos seus últimos 40 anos de vida.

Sem esse conhecimento de seu próprio passado essa pessoa torna-se uma estrangeira no presente, pois ele não tem nenhuma referência para compreender e interagir com as pessoas de seu convívio social e nem a capacidade de conectar, de linkar os acontecimentos políticos, econômicos e culturais de seu tempo no presente.

A História não faz previsões do futuro com base nos conhecimentos do passado. Essa conversa de que “se o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandeses ou pelos franceses o nosso país seria muito melhor” é uma grande perda de tempo para quem estuda História.

Volto a repetir. A História não faz previsões do futuro. Muito pelo contrário, o historiador só tem a possibilidade de analisar os fatos depois que eles acontecem.

O historiador só analisa o fato histórico depois que ele acontece. Se por acaso o seu professor ou professora de História costuma fazer previsões do futuro com base no conhecimento do passado isso não é aula de História.

Isso é aula de futurologia, de adivinhação, algo que eu não aprendi na faculdade de História.

O Que São Fontes Históricas?

As fontes históricas são os registros produzidos pelas diversas sociedades que existiram no passado. Todo e qualquer tipo de registro produzido pelos seres humanos é considerado uma fonte histórica.

Por onde o homem passa ele deixa rastros, vestígios, informações. Algumas dessas informações são mais fáceis de serem encontradas. Já outras são mais difíceis.

Mas o fundamental é que você saiba que as fontes históricas são as matérias-primas que permitem que os historiadores realizem o seu trabalho de investigação do passado.

Anteriormente eu disse que o historiador só analisa o fato histórico depois que ele acontece. Pois então, as fontes históricas, estes registros produzidos no passado, trazem consigo diversas informações que permitem um trabalho de reconstituição dessas organizações sociais.

Os historiadores não têm acesso a todas as fontes históricas. Por isso, o nosso conhecimento do passado sempre é parcial. O conhecimento do passado é uma espécie de quebra-cabeças faltando um monte de partes para ficar completo.

As fontes históricas são muito variadas. Hoje praticamente qualquer registro pode ser considerado um documento relevante para o trabalho de investigação do historiador.

Por exemplo, as páginas de internet, podcasts, blogs e conversas no extinto Orkut, ou as sensações do momento hoje nas redes sociais (tais como Facebook e Whatsapp) são utilizados como registros históricos para compreender e interpretar o comportamento dos seres humanos. 

Agora vamos falar sobre alguns tipos de fontes históricas. O historiador se utiliza muito das fontes escritas. Elas podem ser de natureza oficial ou particular, tais como cartas, textos de jornais, testamentos, leis, poemas, obras literárias, entre muitas outras.

Temos também as fontes iconográficas. Eu adoro trabalhar com iconografias.  Elas dizem respeito ao mundo das imagens, tais como cartoons, charges, obras de arte, fotos de família, pinturas rupestres, os vitrais de uma igreja e coisas desse tipo.

Não podemos deixar de falar das fontes orais, tais como filmes de cinema, relatos de comunidades organizadas na tradição oral, músicas, cantigas populares, entre muitas outras.

Quando uma determinada sociedade não possui registros escritos as fontes orais passadas de geração em geração acabam se tornando uma das fontes históricas mais importantes para analisar o passado de um determinado grupo.

O historiador é uma espécie de investigador do passado. E todo bom investigador precisa de uma equipe para auxiliá-lo, pois o trabalho de investigação do passado é extremamente complicado.

Além disso, trabalhando sozinho o Historiador não dispõe de todas as ferramentas para coletar as informações e extrair o conhecimento do passado do jeito que ele necessita. É por isso que a História sempre recorre a outras disciplinas para desenvolver o seu trabalho.

Vamos analisar algumas dessas disciplinas que auxiliam o Historiador a partir de agora. Começaremos pela Arqueologia.

O trabalho dos arqueólogos é de fundamental importância para os historiadores. As escavações feitas por eles são capazes de descobrir cidades inteiras debaixo da terra. É debaixo dessa terra que se escondem verdadeiras minas de informações a respeito de sociedades praticamente esquecidas.

Comunidades inteiras debaixo da terra revelam textos escritos, vestimentas, utensílios domésticos, entre tantas outras informações que nos permitem ter acesso a alguns fragmentos do passado.

Pois como eu disse, é impossível conhecer o passado em sua totalidade. A utilização da geologia e da técnica do carbono 14 pelos arqueólogos possibilita estabelecer com certa precisão a idade dos fósseis encontrados por eles.

Agora vamos falar um pouco sobre a Geografia. A geografia é outra aliada fundamental dos historiadores. Geralmente os estudantes que gostam de História também costumar admirar muito a Geografia.

A produção de mapas, os estudos demográficos que ajudam a explicar as variações da população humana, os estudos sobre a ocupação do espaço geográfico, dentre muitos outros temas, ajudam os historiadores a montar as peças do quebra-cabeça do passado. Está lembrado da última aula?

Eu falei que sem o tempo não há como estudar História. Pois bem, não existe tempo sem espaço. Se o tempo é o ponto central dos estudos conduzidos pelos historiadores o espaço é fundamental para o desenvolvimento do trabalho dos geógrafos.

A ação das sociedades humanas no tempo e no espaço geográfico é tanto um elemento de estudo dos historiadores quanto dos geógrafos.

A diferença é que cada um aprofunda os seus estudos em um elemento diferente. Mas na verdade, as fronteiras entre História e Geografia estão se cruzando o tempo todo.

O Que São Fatos Históricos?

O fato histórico é um assunto bem delicado, muito delicado mesmo. Você já deve ter escutado alguma vez na vida alguém dizer algo mais ou menos assim: “contra fatos não há argumentos”. 

Bem, nós aqui do Blog HistoriAção discordamos desse famoso e popular clichê repetido milhares de vezes em quase todo lugar.

Vamos explicar isso com mais detalhes. Para nós uma história tem várias interpretações possíveis. Mas para você entender essa parte precisamos antes definir o que é fato histórico.

O fato histórico é um dos objetos de estudo do historiador. O fato histórico é um acontecimento desencadeado no passado.

Ele é um processo irreversível, ou seja, uma vez realizado não pode ser alterado. Está aqui um exemplo de um fato histórico. Em 1945 os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Não há como reverter esse acontecimento e nem as suas consequências.

Ele realmente aconteceu, ninguém nega isso e esse é um processo irreversível, ou seja, não há como voltar atrás no tempo e no espaço para modificar esse acontecimento. Portanto, o fato histórico é único, singular, específico e todos reconhecem isso.

Preste atenção porque agora vem a parte mais importante. O que muda é a interpretação a respeito do fato histórico.

Cada nova geração de historiadores faz novas perguntas para antigas fontes históricas. Isso acaba produzindo interpretações completamente diferentes e inovadoras a respeito de um mesmo fato histórico.

Deixa eu explicar apresentando outro exemplo. O fato histórico é a colonização do Brasil. Durante muito tempo os historiadores acreditaram que havia um monopólio exclusivo de Portugal sobre sua colônia na América.

Peço perdão pela redundância, pois monopólio significa exclusividade. Mas há pouco tempo atrás acreditava-se que o rei de Portugal possuía um controle total e absoluto do Brasil Colônia.

Acreditava-se que este era um controle político, econômico, religioso e cultural que atingia toda a população que vivia na colônia. Era como se o rei tivesse olhos e ouvidos espalhados por todos os lados, do litoral até os pontos mais distantes do sertão.

Atualmente, devido a utilização de novas fontes, sabe-se que esse monopólio era quebrado de inúmeras formas, tais como sonegação de impostos, pirataria e favorecimento pessoal dos próprios funcionários do rei (a famosa corrupção que a gente aqui no Brasil conhece muito bem).

Dessa maneira, o rei de Portugal, que estava do outro lado do oceano Atlântico, controlava somente a ponta do iceberg. E todo mundo sabe que a ponta do iceberg representa apenas 10% de seu tamanho real. Entendeu a diferença?

O fato histórico é o mesmo (a colonização do Brasil por Portugal). Todavia, as diferentes maneiras de se interpretar o fato histórico fazem com que os historiadores analisem a mesma situação de maneiras completamente diferentes.

Portanto, quando alguém lhe disser que “contra fatos não há argumentos”, diga a essa pessoa que isso é um grande equívoco e que o fato histórico depende da interpretação que lhe é dada.

Ângulos diferentes, diferentes pontos de vista desencadeados em diferentes momentos provocam interpretações completamente novas a respeito do mesmo fato histórico.

É por isso que não existe verdade única. Um dia acreditou-se que o planeta Terra era o centro do universo. Tempos depois provou-se que isso não era verdade.

A pouco tempo atrás dizia-se que comer muitos ovos fazia mal para a saúde. E, infelizmente, eu deixei de comer muitos ovos por causa disso.

Hoje sabemos que o ovo é uma importante e saudável fonte de proteína. O tempo passa e o que era verdade passa a não ser mais. O fato histórico é assim.

Ele depende de uma interpretação que possa ser sustentada com provas, com fontes históricas consistentes.

Portanto, contra fatos há argumentos, que precisam ser sustentados com fontes consistentes e confiáveis para sustentar o seu ponto de vista.

Portanto, contra fatos há argumentos, que precisam ser sustentados com fontes consistentes e confiáveis para sustentar o seu ponto de vista.

Tempo Histórico e Tempo Cronológico

O tempo está presente em todos os aspectos de nossa vida social. O tempo não para. Além disso, ele se movimenta várias direções diferentes ao mesmo tempo. Parece complicado, mas com um pouco de atenção as coisas ficarão mais tranquilas. Vamos analisar uma parte de cada vez.

Em primeiro lugar o tempo é uma criação cultural. Ou seja, cada cultura, cada sociedade tem um jeito diferente de se relacionar com o tempo. Com alguns exemplos fica mais fácil entender. Veremos a seguir três diferentes calendários existentes no mundo.

Vamos analisar o calendário hebraico (também conhecido como calendário judaico), o calendário cristão e calendário muçulmano. Estas são as três maiores religiões monoteístas do mundo, ou seja, religiões que acreditam na existência de um único Deus.

Observe esse quadro comparativo. Quando ocorreu o nascimento de Jesus Cristo (momento que marca o início do calendário cristão) o calendário hebraico já estava no ano de 3761.

E quando Maomé fugiu para Medina (momento que marca o início do calendário muçulmano) os cristãos já estavam no ano de 622 depois de Cristo. Como resultado dessas diferenças temos a seguinte situação.

No momento em que este texto está sendo escrito os cristãos estão no ano de 2019, os judeus estão no ano de 5779 e os muçulmanos estão no ano de 1440. Percebeu? Cada uma das três maiores religiões monoteístas do mundo conta o tempo de um jeito diferente.

Além disso, os três calendários coexistem, ou seja, são utilizados juntos, ao mesmo tempo, pois existem cristãos, judeus e muçulmanos que compartilham o mesmo espaço social em várias partes do mundo.

Tem mais uma observação a ser feita. Existem algumas organizações sociais que não tem calendário. O tempo deles é o tempo da natureza.

Agora vamos falar sobre a diferença entre o TEMPO HISTÓRICO e o TEMPO CRONOLÓGICO. O Tempo Cronológico é bem fácil de entender.

Tempo Cronológico é o tempo do relógio, é o tempo do calendário. Portanto, o Tempo Cronológico possui regularidade, previsibilidade e estabilidade. O Tempo Cronológico utiliza medidas exatas que permitem consultar o tempo com rigor e precisão.

Já o Tempo Histórico é completamente diferente. Ou seja, o Tempo Histórico é irregular, imprevisível e instável.

Ele não possui exatidão e também é impossível dizer com precisão quando começou e quando terminou um determinado processo histórico. Várias temporalidades se misturam e ocorrem simultaneamente.

Fala a verdade, você está achando este assunto de Tempo Histórico meio complicado. Realmente não é um tema simples de ser tratado, pois aqui nós entramos em uma discussão filosófica.

Como é possível estudar uma coisa que muda o tempo todo? A Filosofia é muito útil nesse momento de nossa aula. Então, venha comigo fazer algumas reflexões filosóficas sobre o tempo.

Falar sobre o tempo é sempre muito complicado, pois ele pode assumir várias dimensões. Nós podemos falar em Tempo Biológico, Tempo Geológico, Tempo Histórico, Tempo Psicológico, entre muitos outros.

Vamos a um exemplo bem simples. O Tempo Biológico é o tempo que todo ser vivo experimenta, passando pelas fases do nascimento, amadurecimento e morte. Este é o Tempo Biológico de todo ser vivo.

Nós nascemos, amadurecemos e morremos. Porém, cada espécie, cada ser vivo tem um Tempo Biológico diferente.

Aos 12 anos de idade um ser humano ainda está em processo de desenvolvimento, somos ainda crianças. Um cachorro com 12 anos de vida já está adulto e no fim de seu processo biológico, ou seja, falta muito pouco tempo para ele morrer.

Percebeu a diferença. O Tempo Cronológico, o tempo do calendário é o mesmo, ou seja, um ser humano e um cachorro com 12 anos de vida. Porém, do ponto de vista do Tempo Biológico eles estão em momentos completamente diferentes.

Um deles está na fase do desenvolvimento, enquanto o outro está prestes a finalizar o seu tempo de vida neste planeta.

Como esta estrada é muito complicada, vamos oferecer a você alguns elementos para não se perder no meio do caminho.

QUAL É A ORIENTAÇÃO DO TEMPO? É possível se orientar pelo tempo? A resposta é sim.

QUAL É A LOCALIZAÇÃO DO TEMPO? É possível se localizar no tempo? A resposta também é positiva. Vejamos alguns exemplos.

Instante, anterioridade e posterioridade. O instante é aquele tempo rápido, quase imperceptível, quando você percebe já é tarde demais, pois aconteceu uma mudança e você sequer teve condições de acompanhar o evento.

Por exemplo, quando alguém diz “eu estava atravessando a rua, olhei para um lado e para o outro e em um instante a moto surgiu e me atropelou”.

A noção de anterioridade e de posterioridade são fundamentais para a vida de qualquer ser humano. Eles estão relacionados a tudo aquilo que aconteceu antes e depois de uma determinada referência central.

Por exemplo, nas investigações policiais é importante saber se as provas de um crime foram destruídas no momento anterior (antes) ou posterior (depois) da ocorrência de um assassinato (homicídio).

Ter essa informação muda completamente o rumo das investigações.

O acontecimento é reversível ou irreversível? Estas são outras formas de se orientar e localizar no tempo. Uma conta de água de deixou de ser paga é um processo reversível, ou seja, mesmo depois do vencimento é possível pagar a conta com multa e juros e evitar que o fornecimento de água seja interrompido na sua casa.

Ou seja, processos reversíveis permitem que você altere o resultado de algo que já aconteceu. No nosso exemplo, trata-se da conta de água com data de pagamento vencida. Já outros processos são irreversíveis, ou seja, uma vez que tenham acontecido é impossível alterar o seu resultado.

Por exemplo, um homem discute com outra pessoa no trânsito, fica nervoso, perde completamente o controle emocional, saca uma arma e mata este indivíduo. Este homem pode até se arrepender depois.

Porém, este acontecimento é irreversível, não há como recuperar a vida dessa pessoa. Ela está morta e mudar o resultado desta situação é impossível, improvável.

Passado, presente e futuro são as formas mais comuns de orientação e localização no tempo. Compreender o passado é compreender que alguma coisa já aconteceu.

Compreender o presente é ter consciência de que alguma coisa está acontecendo agora, neste exato momento. E compreender o futuro é ter o conhecimento de que o que você está fazendo agora terá um certo resultado daqui a algum tempo.

Tem um ditado popular que eu gosto muito e que está relacionado diretamente com a nossa relação com o tempo. Ele diz assim: “quem mais tarde quer colher mais cedo tem que plantar”.

Ou seja, se você quer colher os frutos no futuro tem que começar a trabalhar o mais cedo possível para obter este resultado. Você quer passar no ENEM? Quer ser aprovado no concurso público?

Quer tirar a carteira de motorista? Quer comprar uma casa ou apartamento? Essas são coisas que só podem acontecer no futuro se você fizer alguma coisa no presente para que o seu desejo se torne realidade.

Temos nestes exemplos o passado, o presente e o futuro acontecendo ao mesmo tempo.

Podemos concluir a nossa aula da seguinte forma. Se você não compreende a orientação do tempo não é capaz de agir e de produzir eventos na sua vida.

Um último exemplo. O agricultor sabe que existe um tempo adequado para plantar. Ele deve planejar essa ação com antecedência. Caso contrário não será capaz de colher.

E dessa forma ele e sua família vão passar fome. Se você deixar a vida te levar pode chegar em qualquer lugar. E este pode ser um lugar muito desagradável que você pode se arrepender para o resto de sua vida.

Tempo Histórico e Tempo Cronológico Parte 2

Em nossa aula número 1 eu afirmei que esse papo de estudar o passado para não cometer os mesmos erros no futuro é uma grande furada. Eu afirmei também que isto não pode ser considerado correto porque a História da humanidade não é uma marcha em linha reta em direção ao futuro.

Isso se explica porque o Tempo Cronológico (o tempo do relógio, o tempo do calendário) é completamente diferente do Tempo Histórico. A partir de agora você vai compreender com mais clareza os motivos dessa diferença.

Uma das dimensões assumidas pelo Tempo Histórico é a CONTINUIDADE. Em História falamos em continuidade quando depois de um longo período histórico alguns aspectos socioculturais continuam fazendo parte da organização social de um povo, mesmo em meio às dificuldades surgidas no caminho.

Exemplo: existe uma CONTINUIDADE na organização política da Inglaterra. Lá a Monarquia Parlamentar foi estabelecida em 1688 (durante a Revolução Inglesa) e continua assim até os dias atuais.

A Inglaterra enfrentou guerras violentíssimas contra a França no século XVIII, enfrentou uma França ainda mais poderosa sob o comando de Napoleão Bonaparte no início do século XIX, enfrentou a Primeira Guerra Mundial, superou as dificuldades da Crise de 1929, resistiu ao Nazismo e à Segunda Guerra Mundial, passou ainda pela Guerra Fria e mesmo depois de todas essas dificuldades a Inglaterra continua sendo uma organização política caracterizada pela Monarquia Parlamentar.

Temos ainda a DESCONTINUIDADE. A descontinuidade, por sua vez, é utilizada para o caso de organizações socioculturais caracterizadas pela interrupção de algum mecanismo de sua organização interna.

Em alguns casos a ausência de continuidade pode trazer resultados negativos para toda a coletividade. Exemplo: Na História do Brasil houve uma descontinuidade na participação política dos analfabetos, pois eles foram impedidos de votar em 1891 e só reconquistaram esse direito em 1988 (97 anos depois).

Essa descontinuidade na participação política do povo brasileiro foi uma coisa gravíssima, pois neste período de 97 anos a maior parte da população era analfabeta. E, portanto, a maior parte do povo ficou impedido de participar das decisões políticas mais importantes do Brasil.

Isso significa que a minoria da população, uma elite política, comandou o Brasil durante quase 100 anos sem ter que levar em consideração os interesses da maioria da população. Essa descontinuidade custou muito caro para o amadurecimento político do povo brasileiro, que ainda não sabe votar, sendo muito comum entre nós o voto de deboche.

Aquele voto em pessoas totalmente despreparadas como forma de protesto contra a situação política do país. Acontece que esses candidatos escolhidos para o voto de deboche ou voto de protesto acabam muitas vezes sendo eleitas e vão decidir sobre os rumos políticos de nosso país.

Vamos falar sobre outra característica do Tempo Histórico: a MUDANÇA. A mudança diz respeito às alterações, que às vezes são lentas, outra vezes são mais rápidas, ocorridas no interior de uma organização social.

As mudanças são percebidas com mais clareza com um certo distanciamento temporal. Vamos a mais um exemplo. Houve uma mudança nas relações de trabalho no Brasil durante o século XIX (1801 a 1900).

Neste contexto predominava em nosso país a escravidão. A escravidão era a principal relação de trabalho em nosso país neste período. Desde o 1810 a Inglaterra pressionava Portugal para acabar com o tráfico de escravos, mas isso só aconteceu em 1850, ou seja, 40 anos depois, quando o Brasil já era um país independente.

Novas leis surgiram ao longo da segunda metade do século XIX. Em 1871 foi decretada a Lei do Ventre Livre, que concedia a liberdade para os filhos de escravas nascidos a partir desta data, desde que certas condições fossem atendidas.

Em 1886 foi decretada a Lei dos Sexagenários, que concedia a liberdade para escravos que tivessem completado 60 anos. E, por fim, em 1888 foi decretada a Lei Áurea, que acabava definitivamente com o trabalho escravo no Brasil.

Ao mesmo tempo que a escravidão era lentamente abolida do Brasil ocorria a introdução da mão-de-obra livre assalariada em nosso país, com a chegada do imigrante europeu. Esse processo de mudança foi marcado por diversos conflitos entre os defensores da escravidão e os partidários da liberdade.

E, dessa forma, durante o período de um século é possível observar a MUDANÇA nas relações de trabalho no Brasil, com o fim do trabalho escravo e a introdução do trabalho livre assalariado.

Você só consegue observar essa MUDANÇA com mais clareza se houver esse distanciamento no tempo. Neste caso específico foi necessário observar uma série de acontecimentos desde uma época em que o Brasil era uma colônia de Portugal até o fim da monarquia para entender o complicado processo que levou ao fim da escravidão em nosso país.

Junto com a mudança temos também a PERMANÊNCIA como outra dimensão do Tempo Histórico. As permanências ocorrem quando uma característica cultural do passado ainda pode ser verificada no presente, mesmo com a ocorrência de mudanças profundas na organização social de uma comunidade. Voltaremos ao exemplo da escravidão.

A escravidão acabou oficialmente no Brasil em 1888.  Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante em pleno século XXI muitas pessoas ainda são submetidas a condições de trabalho semelhantes à escravidão, tanto no campo quanto na cidade.

Elas perdem a liberdade e são obrigadas a trabalhar sob a vigilância de outros homens tal como se fossem escravas. Quando uma denúncia é feita as autoridades competentes entram em ação para impedir que tais práticas continuem acontecendo.

Veja bem. A escravidão acabou oficialmente no Brasil a partir de uma lei decretada em 1888. Entretanto, mais de 120 anos depois a escravidão permanece presente nas relações culturais de nossa sociedade, pois é muito comum encontrar no noticiário a libertação de pessoas que estavam submetidas a condições de trabalho análogas à escravidão.

Vamos falar agora da dimensão do Tempo Histórico conhecida como RUPTURA. Quando se fala em ruptura em termos de Tempo Histórico estamos falando de mudanças rápidas, violentas e radicais no interior de uma sociedade.

As RUPTURAS no Tempo Histórico são visíveis em processos revolucionários, quando quase repentinamente uma forma de organização social é “virada ao avesso”. Como exemplo podemos citar a Revolução Francesa.

Durante a Revolução Francesa a ordem social dominada pelos privilégios do Clero e da Nobreza foi rapidamente colocada no chão de forma extremamente violenta. Houve inclusive a execução do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta na guilhotina.

A França nunca mais foi a mesma depois dos acontecimentos ocorridos entre 1789 e 1799. Lá as mudanças foram violentas e radicais, repercutindo em quase todo o mundo ocidental.

A RUPTURA do Tempo Histórico na França foi algo tão radical que o dia 14 de julho de 1789 (data da Queda da Bastilha) é o marco simbólico do fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea.

Ou seja, teve fim uma determinada organização social e surgiu outra completamente diferente em seu lugar ao longo dos 10 anos da Revolução Francesa.

Em termos de Tempo Histórico podemos falar ainda em SINCRONIA. Em História falamos em processos sincrônicos quando determinados acontecimentos ocorrem quase ao mesmo tempo ou então em contextos muito próximos uns dos outros.

Como exemplo podemos citar a Inconfidência Baiana de 1798, que ocorreu no mesmo período em que se desenvolvia a Revolução Francesa (1789/1799). Como a Revolução Francesa começou antes houve uma influência das ideias revolucionárias europeias na Inconfidência Baiana.

Cada um desses processos possui suas próprias características. Entretanto, a proximidade relacionada ao tempo fez com que algum contato fosse estabelecido pelos indivíduos que estavam na América e na Europa, separados pelo Oceano Atlântico.

Como se Representa os Séculos em História?

Vamos começar com algumas observações gerais. São coisas bem simples e fáceis de entender. Em primeiro lugar é importante dizer que a representação dos séculos na disciplina de História geralmente é feita em algarismos romanos.

Tem muitos, mas muitos alunos mesmo que erram questões de História simplesmente porque não sabem ler a representação dos séculos em algarismos romanos.

Este é um conteúdo básico da disciplina de Matemática estudado no 4º ou no 5º ano do Ensino Fundamental. Portanto, não tenha vergonha. Procure uma cartilha básica de matemática e faça uma revisão de algarismos romanos. Vai ser rápido e isto vai te ajudar aqui nas aulas de História.

Então vamos para as informações básicas relacionadas à representação dos séculos em História.

Milênio é um período de 1.000 anos.

Século é um período de 100 anos. Por exemplo: de 1901 até o ano 2000 temos o século XX.

Quartel é um período de 25 anos. A expressão quartel representa na verdade um quarto de século. Ou seja, se um século possui 100 anos, então um quarto de século possui 25 anos. Esta é uma expressão típica do vocabulário dos historiadores, mas você pode encontrá-la por aí de vez em quando. Por exemplo: o último quartel do século XVIII representa um período situado entre 1775 e 1800.

Década é um período de 10 anos. Por exemplo: o ano 2000 está localizado na década de 2000. O ano 1985 está situado na década de 1980 ou década de 80 do século XX. As duas expressões estão corretas.

Vamos seguir em frente e aprender como identificar em qual século está inserido um determinado ano.

Nossa primeira regrinha básica é esta aqui. Se a data que você estiver examinando terminar em dois zeros, o século corresponde ao primeiro algarismo ou aos primeiros algarismos localizados à esquerda do número analisado.

Por exemplo:

O ano 200 a.C está inserido no século II a.C. Esqueça os dois zeros. Do lado esquerdo fica o século que estamos analisando, ou seja, estamos no século II a.C

O ano 400 está inserido no século IV. Ignore os dois zeros e o que fica do lado esquerdo é o século que estamos procurando, ou seja, estamos falando do século IV. É só fazer a mesma coisa para os outros exemplos.

Nossa segunda regrinha básica é esta aqui. Quando o ano não termina em dois zeros, basta eliminar a UNIDADE e a Dezena que o compõe e somar 1 ao restante do número. Vamos analisar alguns exemplos.

O ano de 450 a.C está localizado no século V a.C. Pela nossa regrinha básica fica assim. Vamos eliminar a unidade deste número, ou seja, eliminamos o número zero. Depois nós também eliminamos a dezena deste número, ou seja, eliminamos o número 5. Sobrou o número 4 e a ele somaremos o número um. 4+1=5, portanto o ano de 450 a.C está localizado no século V a.C

Nosso próximo exemplo é o ano 1998. Ele está localizado no século XX. Pela nossa regrinha básica fica da seguinte forma. Primeiro nós temos que eliminar a unidade deste número, ou seja, eliminamos o número 8. Depois nós eliminamos a dezena deste número, ou seja, eliminamos o número 9. Sobrou o número 19 e a ele nós somamos o número 1. Como resultado temos o século XX.

A Divisão dos Períodos Históricos

Agora, para finalizar a nossa aula vamos falar sobre a periodização tradicional da História. Ou seja, vamos falar sobre a famosa divisão dos períodos históricos.

Começaremos pela Pré-História. A Pré-História é um período que começa com o surgimento da raça humana a mais ou menos 4 milhões de anos atrás e vai até a invenção da escrita no ano de 3500 a.C.

Na sequência temos a História Antiga, que começa com a invenção da escrita em 3500 a.C e vai até o ano de 476 d.C., momento em que ocorre a queda do Império Romano do Ocidente.

Logo em seguida vem a História Medieval, que começa com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C. e vai até o ano de 1453, momento em que os Turcos Otomanos tomam a cidade de Constantinopla.

Em 1453 começa a Idade Moderna, período que vai até o ano de 1789, momento em que ocorre a Queda da Bastilha durante a Revolução Francesa.

E por fim, temos a História Contemporânea, que vai de 1789 até os dias atuais.

Preste bastante atenção. Temos mais algumas informações importantes sobre esta divisão dos períodos históricos.

Esta é uma divisão da História que leva em consideração o ponto de vista da Europa e do Mundo Ocidental. Ou seja, trata-se de uma divisão dos períodos históricos que tem como preocupação fundamental os acontecimentos do mundo europeu.

Os marcos cronológicos escolhidos não fazem referência aos acontecimentos da História do mundo Oriental. Outra coisa importante.

Esta é uma divisão dos períodos históricos fundamentada no tempo cronológico, ou seja, o tempo do calendário, o avanço da humanidade em linha reta rumo ao futuro.

E depois de tudo que nós falamos nas aulas anteriores você sabe que o Tempo Histórico é muito diferente do Tempo Cronológico, pois a história da humanidade é caracterizada por continuidades e descontinuidades, por mudanças e permanências, por rupturas e sincronias, por avanços, retrocessos e estagnações.

Enfim, tudo isto misturado e ocorrendo ao mesmo tempo.  Nossa última observação. O fato de não possuir escrita não significa a impossibilidade de produzir História.

Atualmente os Historiadores utilizam as fontes orais, fontes materiais, fontes iconográficas, entre tantas outras, para interpretar as organizações sociais do passado que não possuíam escrita.

A nossa aula se encerra por aqui. Esperamos que você tenha gostado desta breve introdução aos estudos históricos. Em um outro momento desenvolveremos as aulas de aprofundamento, em que abordaremos o letramento histórico.